O que há por trás dos vícios


Todos os adictos, os dependentes, ou mais usualmente viciados, cada um com seu tipo específico de vício, estão buscando algo. Porém, em virtude de algum acontecimento pontual, acabam por interromper sua busca e ficam estagnados num âmbito substitutivo, esquecendo-se que a busca deve levar ao ato de encontrar, e assim resolver esse impulso inicial, seus esforços seriam plenamente recompensados pelo prazer real.

Os adictos, ou possuidores de algum tipo de dependência ou vício, normalmente acabam por projetar o objeto de sua busca, em relação ao prazer, em alguém ou algo, e, em função desse falso encontro, acabam por interromper abruptamente seu caminho ou sua busca inicial. É como se tivesse errado o alvo, mas através de um auto-engano, acaba por se satisfazer, sem saber que não conseguiu atingir seu prazer pleno.

Essa satisfação enganosa pode ser decorrente da falta de energia a ser desprendida no percurso e nos impulsos de sua busca, ditadas pelo medo intenso do insucesso, pelo simples comodismo, ou mesmo, o que é mais comum, devido a um nível de consciência limitado quanto ao real objeto ou motivo de sua busca, reforçando, por assim dizer, um vício ou um comportamento repetido, por meio de sua parada.

Segundo Dethhefsen e Dahlke, “por toda parte existem sereias à espreita que tentam seduzir o viajante com seu canto para fazê-lo parar, e com isso troná-lo um viciado”.

E existem várias formas ou objetos para nos viciarmos: o dinheiro, o poder, a fama, a influência, o conhecimento, e acima de tudo e de todas, a busca pelo prazer, sendo este último, a princípio, o mais feroz e um dos mais perigosos, pois é a partir deste impulso para a busca do prazer imediato que “estacionamos” no cigarro, nas bebidas, nos excessos alimentares e nas drogas, tornando-os fortemente um vício quando não conseguimos mais nos libertarmos ou desligarmos dele. É como se a busca pelo prazer real fosse mascarada por um falso prazer. É como se a pessoa não conseguisse enxergar, ou distinguir, o real motivo de sua busca interior. É como se o corpo arrumasse um falso prazer para substituir as suas reais necessidades, e daí surgissem falsas ondas de prazer, ditado por um sistema nervoso cego, determinando uma condição corporal preguiçosa no sentido de continuar a sua busca.

Psicossomaticamente, cada tipo distinto de vício revela uma busca diferente.

Os alcoólatras, por exemplo, são pessoas que anseiam por um mundo ideal, livre de conflitos. O uso do álcool, aqui, serve como um fator atenuante, anestesiante, amortizante, formador de ilusões, uma vez que um mundo livre de conflitos e problemas não existentes. Ainda, o álcool serve para estreitar todas as relações, inclusive as conflituosas, uma vez que ele atua, em nível de sistema nervoso central, de forma desinibitória, fazendo suprimir por isso, diferenças sociais; além de acelerar o processo de formação de novas amizades, por gerar uma falsa intimidade.

Quanto ao uso de certas drogas ditas ilícitas, alguns mecanismos de ação se assemelham ao álcool, como é o caso da maconha, onde a pessoa tenta simular uma situação de conforto afetivo interno, se sentindo, por essa razão, mais amado, mais pertencente, mais cuidado, mais reconfortado, mais protegido; o que não ocorre com as outras drogas, as ditas estimulantes.

Ainda, além de um prazer imediato, dando a falsa sensação de poder parar antes do tempo, ou de abreviar o percurso a ser percorrido em sua busca, por preguiça ou medo de novas experiências, a maconha pode atuar como uma forma de fazer com que o indivíduo se sinta pertencente a algum grupo, uma vez que o sentimento predominante em seu corpo é o do abandono, de um vazio intenso, de algo a ser preenchido.

Já a cocaína, no corpo, simula ou dá a sensação de maior capacidade, de ser um ser poderoso ou mais forte, gerando a falsa sensação de melhor desempenho, desprezando a forma criativa para a obtenção dessa maior capacidade. Aqui, novamente a busca pelo amor esta sendo mascarada pela busca por um maior poder, mais dinheiro ou fama, havendo uma leitura cega, uma troca, uma substituição ou um deslocamento da real busca interna pelo amor, afeto, pelo ser cuidado, pela proteção; sempre relacionada com a família de origem, ou seja, uma busca pelo amor e reconhecimento cuidadoso da mãe e pelo amor protetor do pai.

Ainda, desta busca interna pelo amor derivam outros vícios: a fome de amor passa a ser substituída pela compulsão pelos alimentos, podendo gerar quadros de obesidade. É como se o alimento fosse dotado de um amor materno e/ou paterno intenso, e ao ingeri-lo, esse fosse incorporado e saciasse uma busca interna. Também podemos citar o vício associado ao ato de comprar compulsivamente, pelo ato de trabalhar exaustivamente para ser reconhecido, pela sede da fama, dentre outros; e sempre, tendo como cenário de fundo, a busca, a aprovação e o reconhecimento dos outros.
É o repensar sobre os próprios objetivos de sua vida, adquirindo tolerância em relação às frustrações, superando seus maiores medos, além de poder reconhecer suas tendências regressivas, e de poder reassumir suas motivações originais.      

* José Luis Ferrari é Psicoterapeuta e Analista em Psicossomática (C.R.T.: 42.139). Mestre e Doutor pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – U.S.P.