A síndrome do pânico, um tipo específico de transtorno, está associado a um distúrbio de ansiedade, de ocorrência aguda, caracterizado por crises súbitas, sem fatores desencadeantes aparentes, apenas simbólicos, ou ainda sem que haja um estímulo disparador compatível com a intensidade de alterações corporais provocadas. Este determina o surgimento de uma emoção básica, que é o medo, porém com muita intensidade, transformando-o em algo irracional, e que age de uma forma paralisante, incapacitante, fazendo com que muitas vezes o individuo perca suas capacidades e habilidades em lidar com tal situação; sentindo-se estar frente a um perigo eminente, tendo também a falsa sensação de poder levá-lo à morte.
A maioria da população atingida por esse transtorno é feminina, embora hoje esteja aparecendo entre os homens com grande freqüência, e se encontra na faixa etária de 19 a 40 anos, ou seja, em uma fase profissionalmente mais ativa.
Por tudo isso, esse tipo de transtorno psicológico acaba por ter um impacto enorme na vida cotidiana, o que faz com que, por muitas vezes, o indivíduo mude seu comportamento habitual como, por exemplo, deixar de sair de casa, deixar de viajar, pois acredita piamente que ao sair de um ambiente “seguro” correrá mais riscos de morte, ou que não terá possibilidades de ser socorrido a tempo, vindo a falecer. Aqui devemos lembrar que o local em que mais se morre, ou se perde a vida, é exatamente em casa, na cama.
O medo é classificado como uma emoção básica, assim como a tristeza, a raiva, a alegria e o amor. Esse tipo de emoção faz parte de um sistema de alerta normal, que está presente em todo indivíduo, e que visa à preservação ou a conservação do próprio indivíduo e da espécie. Sem essa emoção morreríamos muito rápido, assim como a ausência da dor, que nos mostra o algo de errado.
Quanto ativado pelo nosso cérebro emocional, a amígdala cerebral, o medo prepara o corpo para uma situação de luta ou fuga, ativando uma parte de nosso sistema nervoso chamado de simpático. Dentre as alterações corporais promovidas pela ativação desse sistema nervoso simpático temos o aumento da freqüência cardíaca, o aumento da freqüência respiratória, a dilatação da pupila, mais conhecida como midríase, dentre outras.
Para que tudo isso aconteça, nosso corpo é dotado de um mecanismo de comunicação que é ligado, ou desligado, pela ação hormonal. Trata-se do sistema endócrino ou glandular, estando este em comunicação direta com o sistema nervoso central através de neurotransmissores, como a adrenalina, por exemplo.
Em uma situação de pânico, ou de um medo desproporcional, nosso sistema nervoso reage, se comunicando com o corpo, via hormônios, provocando uma série de alterações, como as citadas anteriormente. Como ocorrem várias mudanças, dá-se o nome de síndrome. Daí o uso do termo síndrome é devido ao conjunto de alterações corporais associadas à emoção medo, ou pânico.
Além das alterações citadas, outros sintomas apresentados pela síndrome ou transtorno do pânico são: dor no peito, palidez, tremores nos membros, rigidez corporal e facial, palpitações com falta de ar, sensação de estar engasgado, ondas de frio ou calor, acompanhadas por sudorese, vertigem, fraqueza, sensação de desmaio, sensação de perda de controle, além de hipervigilância e de dificuldades no pensamento lógico linear.
Existem várias formas de se ativar ou promover essas reações corporais preparatórias, e dentre essas a que merece mais atenção são as relacionadas ou desencadeadas por traumas infantis ou emocionais, ocorridos principalmente do período gestacional aos sete anos de idade, período necessário para que o sistema nervoso complete sua formação, e que seja construída a área da memória. Por isso, os eventos, ou traumas, ocorridos no período anterior aos sete anos, são difíceis de serem lembrados de uma maneira linear ou contínua.
Ainda, a sensação de medo ocorre na vida adulta. Esse é necessário, benéfico, tem que ser respeitado, pois visa a auto-preservação; porém não deve vir com tanta intensidade pois, ao se manifestar na vida adulta, o indivíduo já possui recursos para encará-lo de frente. Nos casos de pânicos, um medo ou uma fobia muito intensa, esse pode refletir um estado regressivo, incapacitante ou irracional do indivíduo, pois normalmente este se manifesta em uma fase mais infantil, ou de bebê, e por isso é desprovido de recursos que possam ser utilizados. Nesse sentido, esse é o motivo pelo qual vários indivíduos que sofrem desse transtorno ficam completamente paralisados, sem saber o como agir: é o bebê, ou a criança, que sem recursos ou conhecimentos fica imóvel, como se estivesse em um `` berço ´´.
Outra causa psicossomática para os transtornos de pânico pode estar associada a pessoas com traços de personalidade mais rígida, ou as que utilizam mais seu lado racional, se distanciando, com muita freqüência, de seu lado emocional. Nesses casos, basta um simples rompimento da barreira ou da comporta emocional para que o corpo se inunde de emoções, principalmente o medo, acompanhado de um estado regredido. Aqui os indivíduos se tornam verdadeiros bebês ou crianças, sem saber o que fazer, ficando fortemente paralisados, mostrando, por isso, sua extrema incapacidade de adaptação frente a uma série de fatores externos ou ambientais, acompanhados pela ansiedade; limitando, por isso, sua liberdade de expressão, já que muitas dessas pessoas passam a não querer mais sair de casa.
Além disso, o transtorno do pânico pode representar ainda uma estreiteza opressiva, uma falta de abertura perante a vida, ou mesmo um mal-entendido com relação ao “fim da vida”, o que poderia fazê-lo esconder-se por detrás de uma respiração irregular ou mais superficial, com sentimento de fuga.
Para todos esses casos o tratamento consiste em fazer com que o indivíduo entre mais em contato com suas emoções, sentimentos e sensações corporais, como, por exemplo, pela respiração e auto-conscientização, tornando-o mais adaptado e mais autoconfiante em seu próprio corpo. Caso seja observado um estado de regressão, o trabalho psicoterápico deverá ser encaminhado no sentido de retorná-lo às condições da vida adulta, mostrando que ele possui recursos para superar, sozinho, os seus medos mais antigos e íntimos. E tudo isso em um ambiente mais seguro, que é o setting terapêutico.
Ainda, a fim de amenizar o sofrimento causado por esse tipo de transtorno, pode ser aconselhável um acompanhamento paralelo junto a um médico, a fim de que se lance mão de certos medicamentos que visem o equilíbrio bioquímico, ou seja, que acabe por reduzir os níveis de certos neurotransmissores, com posterior diminuição do processo ansioso; sempre lembrando que o uso dessas substâncias não visa a eliminação dos fatores desencadeantes desse quadro psicogênico em específico.
* José Luis Ferrari é Psicoterapeuta e Analista em Psicossomática (C.R.T.: 42.139). Mestre e Doutor pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – U.S.P. Atua como Psicoterapeuta Corporal na Casa de Apoio, Recuperação e Tratamento para Dependentes Químicos São Francisco de Assis, em Araraquara; e como Psicoterapeuta Clínico no ESPAÇO SOMA de Ribeirão Preto e Araraquara.
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